Sociedade Secreta do Bardos: Parte I (Cosmogonia e Teogonia)

Existe uma sociedade secreta da qual muitos bardos fazem parte. É dito que ela tem representação em todas as terras conhecidas e além. Em alguns locais elas possuem uma fachada de benevolência – mas ninguém sabe exatamente o que ocorre em suas reuniões a não ser seus membros. Em outras elas parecem existir apenas em mitos e lendas ocultas, sendo sua existência tratada como lenda urbana.

Cosmogonia e Teogonia

Ninguém sabe ao certo quem ou que civilização compôs o cântico primordial onde é relatada a relação entre as duas principais entidades do panteão bardo. Os relatos mais antigos remontam a textos cunhados em folhas de parreira no idioma Antaginês arcaico. Esses textos reaparecem em várias culturas antigas como os Fliandres, os Bactos e os Aunús sempre da mesma forma: duas entidades cósmicas – Karkofon e Egregorea – sempre existiram. Alguns teologos formularam algumas teorias de origem para os dois, mas o mais aceito é que eles são eternos e onipresentes. 

Enquanto Egregorea é a epítome da figura geometricamente perfeita que recebe o som impuro do mundo e o transforma em música purificada, Karkofon é a monstruosa figura de duas cabeças que por uma recebe o som produzido, musical e o regurgita pela segunda cabeça pervertendo-a, transformando-a em cacofonia e caos.

As maiores divergências entre as diferentes seitas é sobre onde o mundo – a nossa realidade – ocorre. Existem várias interpretações diferentes, mas três são mais proeminentes. Os Egregóreos entendem que o mundo ocorre dentro de Egregorea e na sua constante tranformação de caos em música; Já os Mimetistas, por sua vez, defendem que o mundo se encontra fora de Karkofon e Egregorea, sendo influenciado por suas ações. Essa vertente entende que o mundo foi criado juntamente com as duas entidades cósmicas pela interação entre elas. Por último há os Peristálticos que traduzem o mundo como existindo dentro de Karkofon e na sua constante perverção da música para o caos.

Karkofon


Um deus que não cria, mas apenas “processa” a criação de forma dolorosa. A personificação da cacofonia, da dissonância e do “refluxo”. Ele é o devorador entrópico do Verbo e da Harmonia. Opera no ciclo de ingestão (consumir a música) e regurgito (liberar o som degradado ou “caco”).

Esse é Karkofon. a antítese, o antagônico. Onde a sonoridade, oniridade e a harmonia se perdem, pois Karkofon a tudo absorve e nada aproveita. Com duas cabeças, a da direita engole todos os sons, palavras, cânticos ou mantras, com voracidade, sem intenção e sem se saciar. A da esquerda regurgita tudo após um nauseante processamento distorcido, sempre com ânsia, com um nojo repulsivo, sempre em agonia e aflição. Karkofon não é um demônio do barulho; ele é o Fim do Som.

Epítetos

  • Fim do Som: Principal epíteto cultuado em vários templos e studios em diferentes locais. Mesmo nos templos e studios neutros ou nas dos devotos de Egregórea há uma evocação ao Fim do Som, encerrando sua trajetória.
  • Ingestor de Babel: Personifica a confusão das línguas, o momento exato onde a comunicação morre e o ruído nasce. Aqui ele é cultuado numa forma menos monstruosa e mais humanoide.
  • Refluxo do Verbo: A ideia de um refluxo, algo que “não desce” e é expelido de forma dolorosa, retratando de forma proeminente a expressão de pânico e voracidade de Karkofon. É uma divindade que não cria, mas apenas “processa” a criação de forma dolorosa.
  • O Fim inesperado da canção: Consagrado nas regiões costeiras, onde o som das ondas ecoa por quilômetros, sempre interrompendo as canções do templo de forma abrupta, representa a cacofonia e a dissonância como prenúncio e anunciação de um futuro indigesto. Um presságio de dor e angústia.
  • Enarmonia: Essa forma sempre é vista como feminina e é a total dissonância. Ela evoca a existência de pontos desarmônicos que corroem uma estrutura musical, sonora ou comunicativa. 
  • A Retroregurgitação: Esse talvez seja a figura mais perturbadora de Karkofon, onde a cabeça que regugita é voltada para dentro, para a cabeça que consome, fazendo com que parte do vômito de Karkofon volte para ele mesmo.

Outros epítetos: O caco universal; A dispersão angustiante; A cacofonia cósmica; A ausência do vazio; A pausa dolorosa.

Egregorea

Karkofon, está de frente para uma outra divindade: Egregorea. Egregorea assim como sua contraparte Karkofon, é uma figura andrógina. Ela é a elevadora dos pensamentos e das ações e intenções mediante as vibrações e a sonoridade. É um dualismo que não se baseia no clássico “Bem vs. Mal”, mas em Concentração vs. Dissipação.

Se Karkofon é puramente orgânico, visceral e “pesado”, Egregorea é etérea, geométrica e “luz vibrante”. Ela é a soma. Ela não existe sem o coletivo; ela é a prova de que o som, quando compartilhado com intenção, gera uma entidade maior que a soma das partes.

Egregorea amplifica (recebe para elevar). Enquanto a androginia de Karkofon pode ser vista como uma massa disforme de carne que não se define, a de Egregorea é a perfeição simétrica — uma harmonia total entre o masculino e o feminino, o grave e o agudo, o silêncio e o grito.

Epítetos

  • A Tecelã da Ressonância: Enquanto Karkofon é a divindade do “Eu Devorador” (isolamento, digestão, fim), Egregorea representa o “Nós Transcendental”. Esse epípeto é muito difundido entre os egregóreos principalmente.
  • A plenitude da Harmonia: A harmonia plena como personificação é um dos mais difundidos epítetos entre os membros da ordem dos bardos de origem religiosa. Membros de diferentes religiões costumam associar Egregorea com o grau máximo de harmonia.
  • O(A) pacificador(a): Essa versão de Egregorea sempre deixa sua forma andrógina de lado. Em alguns templos é vista como masculina e outros a vêem como feminina. Ela representa o poder do som em pacificar o ambiente e estimular a própria Egrégora. Cultuado(a) principalmente em zonas mais rurais e afastadas dos grandes centros
  • O OHM: Epíteto cultuado principalmente nas regiões montanhosas do oriente, traduz a figura de Egregorea como o Mantra primordial que no seu ressoar purifica o som e o eleva para o ambiente. Muito associado à natureza e sua relação com o homem.

Outros epítetos: O Templo vivo; A purificação; O(A) coletor(a); A(O) dançarina(o) cósmico; A pluralidade musical.

Zeugma

A dualidade é a principal teogonia dos princípios bárdicos. Porém, dentro do grupo dos Mimetistas há um subgrupo aceito que interpreta que deve existir uma terceira divindadade entre Karkfon e Egregorea. Para os extremistas egregóreos, o mundo ocorre dentro da purificação de Egregoréa. Para os extremistas de Karkofon – os Peristálticos – a existência ocorre dentro da perversão de Karkofon. Para os mimetistas zeugmáticos, a existência ocorre exatamente no meio, no pensamento da figura conhecida como Zeugma.

Zeugma não possui lastros com Karkofon ou Egregorea. Ele é a própria consequência intermediaria dos quatro movimentos: A Purificação e a Emanação de Egregorea e a Ingestão e a Regurgitação de Karkofon. Não o produto desses movimentos, mas a consequência deles, como um arco que, depois de criado, persiste e coexiste com suas origens.

Para os zeugmáticos toda a realidade existe e persiste no pensamento de Zeugma. Diferente das outras interpretações dentro da socieade, os zeugmáticos veem a realidade como algo que teve princípio – na criação de Zeugma – e terá seu fim, na morte de Zeugma e no fim de seu pensamento. E o pensamento de Zeugma é todo o som, toda a música e toda a expressão artística da humanidade.

Epípetos

  • O Dual: Forma andrógina que alguns zeugmáticos o referenciam, caracterizada por sua forma híbrida de perfeição geométrica com amorfismo. Cultuado principalmente pelos membros do contemplatismo, um subgrupo dos zeugmáticos.
  • Compositor Racional: Eleva a mecânica da realidade dos zeugmáticos, a existência na racionalidade musical de Zeugma. Para eles, compositores mundanos não criam mas acessam a criatividade de Zeugma.

Outros epítetos: O Eco vibrante; A translumnescência do som; O sexto sentido cósmico; A bússola musical.

Imagens geradas por IA (Gemini)
Publicado originalmente em 03/07/2026

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