Eu sinto…
Se o que eu penso se baseia em sentimentos, e meus sentimentos são baseados em minhas memórias e nas minhas sensações, e se estas são erradas, então o que sinto está errado pois se baseia em uma experiência inexistente ou incorreta. Mas ainda assim o que penso e o que sinto estão dentro de mim e existem, me definem, me alimentam e definem.
Se aquilo que senti num determinado momento, em uma determinada situação é baseado em um incidente que não ocorreu, então toda a premissa que leva à sensação gerada é inválida. Logo, o sentimento resultante é de base inócua e, portanto, o sentimento em si é inválido.
Esse sentimento gerou todo um fluxo, todo um processo que iniciou e, com a descoberta da falsa premissa inicial, ele não se desfaz. Ele perdura, perdido, querendo sair de alguma forma. Esse sentimento começa a se tornar uma ameaça, um perigo, um monstro que não pode ser contido mas não tem para onde ir. Ele foi calado.
E ele explode. Eclode de uma prisão sem grades, de uma casca aberta. Natimorto, sem destino ou caminho ele começa a se alimentar dos próprios dejetos, das próprias partes que o compunham, tentando ser escutado, tentando ser liberado, tentando não ser mais, mesmo que já seja.
É um quasar que pulsa, brilha e se visto de longe parece se tratar de libertação, mas basta acercar-se um pouco para ver que é a morte de uma estrela. É uma ruptura interna que não se percebe até que ela chega na pele e, somente então, nota-se algo de errado… Mas já é tarde.
Mas no final, tudo o que esse sentimento-monstro queria – antes de se tornar uma monstruosidade, era existir. Provar que a raiva, o rancor, a repulsa, o desdém, o escárnio, o medo, a ânsia, o descaso, ou qualquer mistura destes ou de quaisquer outros sentimentos estavam lá. Tiveram uma existência, mesmo que infundada, mesmo que sem nexo inicial, ele existiu. Ele gerou outros sentimentos e vai influenciar padrões de comportamento futuro.
Existe um grito em cada calar. E um calar em cada grito. Muitas vezes beatificamos o grito que cata e demonizamos o grito que sai, mesmo que ele esteja calando outras coisas. A sensação de sentir-se ameaçado de alguma forma dá automaticamente o direito de quem se sente de tal maneira de devolver a ameaça, mesmo que ela tenha sido meramente sensorial. Mesmo que não haja risco real. E aí, o grito que supostamente agride continua guardando dentro de si brados de dor e desespero que não são ouvidos nem nos ecos mais retumbantes.
Talvez nas entrelinhas de um grito de raiva tenha uma lágrima que não quer sair ou um pedido de um abraço desesperado. Ou ainda uma angústia, um medo ou…
Imagem gerada por IA (Gemini)
Publicado originalmente em 22/03/2026


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