Às vezes eu desejo não existir.
Não, não desejo simplesmente morrer,
apesar dessa ideia também apetecer.
Mas não… não é sobre partir.
Não. Não é disso que eu estou falando. Eu me refiro a algo mais profundo. Cessar a dor sim, mas principalmente cessar a sensação de estar errado, de ser um fardo, de não entender, de não me entender, de não te entender, de não saber viver.
Essa existência que parece inútil… Não! Que É inútil. E tudo sempre dói. Uma dor intensa, corrosiva, que faz a luta ser sempre inglória, desgastante, degenerante. E ela, a dor, companheira constante, nunca some.
Tudo parte, tudo abandona,
Exceto a dor, essa vil degenerada,
Essa companheira insana,
Que fica e machuca, quando não há mais nada.
Quando todos os sentimentos parecem errados, deslocados, só a apatia, a falta de vontade, persiste. Apatia a tudo, até mesmo à dor que ficou… Não, ela não cessa, mas perde seu sentido. A ausência de tudo, é verdadeira companheira. Ela e meu cigarro. Sempre aqui.
A apatia é uma forma de defesa, eu sei. Quando não há emoção confiável, quando não há coerência na vida, quando a morte não vem para terminar com essa brincadeira de mau gosto – a vida, nossa mente nos protege dizendo para si mesma que ela não está errada e sim o mundo. E se vivemos num mundo errado, então para que se importar?
Como pode?
Algo tão supervalorizado como a vida
nos fazer de escravos, de joguete, como pode?
seguirmos existindo é uma piada.
Depois de viver desilusão, traição, descrença, perfídia, enganos, tragédia, vergonha, desavença, crise, etc, etc, etc, não parece que investir em alguma emoção seja válido. E se o mundo é feito de podridão, para que seguir existindo?
É nesse sentido que deixar de existir parece uma boa ideia. Não é original, eu sei, e pode parecer cruel, mesquinha, vil. Mas também parece ser uma ideia pragmática e até medicinal. Ao invés de lutar indefinidamente tentando tirar a doença do hospedeiro, mata-se o ambiente da doença, o próprio hospedeiro!
Se sempre a mosca retorna para o lixo – seu alimento, retiremos o alimento e não há mais mosca!
Combinemos o seguinte:
Desisto!
Desisto de tudo.
Sempre que tento acertar,
mais errar eu faço.
Sempre que tento viver, me libertar,
mais percebo que sou escravo,
menos de mim consigo liberar.
Sou a sobra, a linha sem relevo.
Discussões que geram abandono, mágoas que geram abandono, descobertas que geram mais e mais abandono. Se entender é somente saber que existe um motivo pelo qual o ridículo se abriga em você. Só. De descobrir é perceber que existe sim uma explicação, mas ela não importa pois é com você! Você sabe que nada que faça será entendido, compreendido, aceito ou escutado. Nada. E quando há o confronto, abandono; quando há a tentativa, abandono; quando há nova prática, ideia ou aceno,
ABANDONO,
ABANDONo,
ABANDOn ,
ABANDo ,
ABANd ,
ABAn ,
ABa ,
Ab ,
a
.
Mas se o abandono é a única saída, qual o sentido da existência em si?
Publicado originalmente em 29/04/2026

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