Um drink e uma memória

E mais uma vez a noite veio
ainda que serena e calma,
trouxe fome e dor em seu seio,
desalento e tristeza para a alma.

Não era uma noite comum, decerto.
Era aquela noite memorável
em que as memórias vinham ao deserto,
e ele somente se sentia mais deplorável.

De aspecto já sombrio ele se calou.
Reafirmou o mesmo que fazia todos os anos:
de que a culpa toda era sua, que faltou.
E que ali havia coberto seu pai em panos.

Delirante como sempre, bêbado como nunca,
atiçou mais uma vez sua dor em autoflagelo.
Buscou dormente mais uma bebida naquela espelunca
E se afundou em auto piedade e ao gelo.

Lembrou-se de sua mãe chorosa.
De seus irmãos e irmãs revoltosos
e da cidade que ele deixou em polvorosa
quando com seu crime satisfez aos invejosos.

Fitou seu copo mais uma vez, talvez a última
E tomou outro gole a terminar sua noite.
Correu ao parapeito, jogou-se à sua nova vítima,
saciando sua sede com ávido apetite.

Era trinta e um de outubro, data comum.
Mas não para ele que, com sua fúria,
bebia de sangue de inocente incomum
para esquecer de seu crime de luxúria.

Foi a setecentos e vinte e três anos já passados.
Se tornou um abjeto vampiro, de sangue bebedor.
Fez nessa data sua primeira vítima, o impensado,
seu próprio pai foi quem saciou seu torpor.

Créditos da imagem: Engyn Akyurt
Publicado originalmente em 01/01/2020

Deixe um comentário