“Numa cerimônia de graduação…”
Cerimonialista: “E agora, a paraninfa da turma, Deisiane Silva”
[Aplausos]
A maior emoção da minha vida foi quando eu olhei para aquele quadro gigante formado por um monte folhas de sulfite coladas lado a lado e lá, do lado do número doze eu li “Deisiane Maria Ferreira Silva”. Era eu! Aprovada para a Universidade de Medicina da USP. Tinha que avisar minha mãe urgentemente. Lembro que naquele dia eu tomei o ônibus e fui correndo. Me lembro que enquanto ia na condução sentido São Mateus, em meio à felicidade do momento, me vi lembrando-me do dia em que tudo isso começou.
Minha mãe trabalhava no centro de coleta seletiva na Avenida Sapopemba. Ela ajudava na coleta e seleção de lixo reciclável. Nesse dia, quando cheguei da escola, havia uma mochila novinha na minha cama. Cadernos, livros, etc. Eu nunca tinha tido isso. Tinha os da prefeitura que chegavam no meio do ano, quando chegavam. E nesse ano, já era agosto e nada. Seguia usando os cadernos do ano anterior para escrever. Eu tinha treze anos e estudar não era exatamente a minha prioridade nessa época. Mas a mochila era bonita! Abri e vi cadernos seminovos e livros em bom estado. Nem eram livros do que eu estava estudando, mas eram livros novos e pareciam ser para mim. Minha mãe então veio e me explicou que alguém havia jogado essa mochila no lixo e apareceu lá no centro de reciclagem. Ela falou com a supervisora dela que não viu problemas em trazer para casa. Agradeci minha mãe com um abraço e um beijo. A vida não foi fácil para ela. Sabe, sempre fomos gente honesta, trabalhadora, mas depois que meu pai morreu, minha mãe tinha ficado num estado de depressão profunda. Ela estava grávida, perdeu o filho e a capacidade de ter filhos também. Quando voltou ao trabalho, lhe deram férias e ao voltar das férias a demitiram. Tivemos que largar tudo que já havíamos conquistado e recomeçar a vida na favela… Mas isso eu só sabia pelas histórias. Quando meu pai morreu eu tinha menos de dois anos de vida. Quando minha mãe saiu, eu peguei o material e comecei a olhar, e folhear. De repente, um papel caiu do caderno. Estava dobrado, em três partes, como uma carta a ser colocada em um envelope. E ela me marcou profundamente. Essa carta eu gostaria de compartilhar com vocês hoje:
“Mãe e Pai, me desculpem. Desculpem-me por haver nascido e por haver sido um problema para todos vocês por tanto tempo. Mãe, perdoe a insensatez de ter saído de seu útero vivo. Pai, perdoe a falta de senso de haver sido este espermatozoide a ter fecundado o óvulo da mamãe. Eu não queria destruir a vida ou os sonhos de vocês. Não tinha essa intenção. Eu só queria existir e nascer. Achei, por um tempo, que poderia sonhar grande. Ter uma profissão que ajudasse as pessoas. Olhei para meu mundo e um dia, quando você pai me levou ao hospital naquela vez em que eu estava gripado, vi aquele senhor de branco perguntando coisas, me analisando e, como que num passe de mágica, ele disse o que eu tinha e como eu melhoraria. Quis ser como ele. Depois, descobri que ele era médico. Médico! Palavra bonita. Doutor é como todos lhe chamam. Queria ser isso. Mas não poderei. Como foi que me permiti sonhar tanto? Como uma criatura como eu que não deveria nem ter nascido poderia pensar em ajudar outros a viver? Como alguém como eu, de existência questionável poderia ajudar outros a existir? Não! Isso não é nem nunca será para mim. Eu tenho destino certo e já está decidido. Quando vocês lerem essa carta, eu já estarei morto. Vou saltar e voar até morrer de encontro ao chão e voltarei a ser pó. O pó que nunca deveria ter deixado de ser. E vocês, então, voltarão a ser felizes. E poderão passear e viajar. E, assim, eu terei curado a vida de quem mais importa e de quem mais amo: a de vocês. Amo vocês dois!
Beijos,
Miguel.”(1)
Cresci e reli muitas vezes essa carta. Não sei nem procurei saber o que aconteceu com o Miguel. Realmente creio que ele se matou. Provavelmente alguma depressão por conta da briga constante dos pais, ou por qualquer outra razão relacionada a eles. Também não sei quantos anos tinha, mas a julgar pelo material na mochila, ele estava na oitava série do fundamental.
Quando era criança, Miguel passou a ser meu amigo imaginário. Conversava com ele, pedia conselhos, me revoltava, chorava e ria. Mas depois, quando cresci e analisei um pouco melhor as palavras dele, vi que, independente do que tenha acontecido, ele tinha uma vocação. Ele queria ser médico desde jovem e já entendia o que isso significava: curar pessoas. Parece óbvio, mas não é. Ele foi até às últimas consequências para tentar curar seus pais. Não sei se conseguiu. Creio que não. Mas por quem nos importamos, não medimos esforços, por mais idiotas que sejam nossas escolhas e opções, fazemos o que estiver ao nosso alcance para vê-los bem. E quando nos dizem que estudamos e nos formamos para aprender mais técnicas e nos capacitarmos para nosso futuro trabalho, eu concluo dizendo que não. Isso é só uma parte. Mas a parte mais importante, o real motivo pelo qual nos formamos médicos é para ampliarmos mais e mais a quantidade de pessoas por quem faríamos de tudo para vê-las melhor. É para entender essa empatia e passá-la adiante.
Créditos da Imagem: Alpha convites
Publicado originalmente em 01/09/2022
(1) Ref.: O Último Cigarro


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