A mesma mão que salva é a que apedreja,
o mesmo beijo que apaixona, trai.
O mesmo amigo que paga a cerveja,
é o que te abandona e se vai.
Assim como a mão que te recebe
é a mesma que esbofeteia,
e é no riso de alegria que também se percebe
o sarcasmo e a ironia.
É no sangue que doamos para a cura
que também notamos a doença
e é na mente que parece pura
em que percebemos a descrença.
É na boca que fala com sinceridade
que muitas vezes se decanta o veneno.
É na mirada leve e sem vaidade
que notamos a dor e o sofrimento.
A “natureza humana” é assim, desse jeito:
caótica, frágil, sem destino ou sentido.
Não existe algo bom que com efeito
não seja deturpado e convertido em desatino.
Créditos da Imagem: Vector Graphics
Publicado originalmente em 05/11/2020
Nota: Parcialmente inspirado no poema Versos Íntimos de Augusto dos Anjos.


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