Pretensão

Sir Waters desembarcou do navio rapidamente. Era cedo, mas ele não queria estar um só minuto mais naquele lugar absurdo. ‘Onde já se viu viajar de forma tão horrível!’ Ele olhou ao redor e viu a cidade, uma cidade dessas portuárias, grandes, como muitas outras em que já esteve. Certo era que o cheiro do café e da cana demonstrava claramente que não estava em seu país natal, além do calor e dos insetos, mas isso não mudava muito. Cidade continuava cidade, mar continuava mar e gente continuava gente.

Felipe, ao ver o confuso senhor que descia com expressão sisuda e apressada do grande ‘Alvorada Cinzenta’, apressou-se em aproximar-se. Não que ele fosse dos maiores malandros desse cais, mas sabia identificar uma presa fácil. Ao se acercar porém, tropeçou em uma pedra e caiu próximo à rampa de acesso à embarcação. Sir Waters, pensando que se tratasse de um dos funcionários do hotel vindo recepciona-lo, disse “Jovem, aqui! Jovem!” Felipe, encabulado, se aproximou. “Tome aqui minha bagagem e leve até o hotel filho.” E Sir Waters se dirigiu até o café mais próximo. Felipe, então, ficou ali, parado, com todo seu lucro do dia ganho por conta de um tropeço.

Sem nada mais em mente a não ser comer alguma coisa e tomar um café, Sir Waters entrou no café. Pediu um café da manhã simples, com torradas, café com leite, um pedaço de bolo, dois ovos e bacon frito. Pediu também o jornal local. Foi servido e ficou ali, lendo e tomando seu desjejum. Ao concluir, pagou com os últimos bilhetes que tinha na carteira e se dirigiu ao hotel onde deveria te a reserva. Ao chegar, foi recebido por uma senhora que lhe negou entrada pois a reserva em nome de Sir Waters somente começaria a partir dia seguinte. “E minha bagagem?” Perguntou ele, prosseguindo “Um rapaz a trouxe do navio para cá”. Sua expressão, porém, foi se transformando quando a dona do estabelecimento foi informando que o hotel não possuia tal serviço. Perdera tudo e não tinha onde ficar até o dia seguinte. Foi então que ouviu o som do sino da igreja, notou a praça em frente ao hotel e as outras pessoas passando. E, com frio no estômago, deixou de sentir-se especial ou estrangeiro e passou a sentir-se apenas mais um no meio da multidão.

Créditos da Imagem: Clay Center Ed-Ventures
Publicado originalmente em 11/02/2026

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