
I
Ouçam, meus amigos, escutem bem
A história que lhes venho contar
Pois àquele que conhece o além
Os céus, suas bênçãos hão de dar
A coragem que este homem tem
Fez demônios o medo sentir
E mesmo que não tenha um vintém
Até o mais poderoso fogo fez servir
Cavalgando pela estrada de Cal’em
Seu cavalo depressa a galopar
Uma garota, bonita e de bem
Ele se deu por encontrar
“Moça, conforto meu cavalo não tem
Mas a tempestade esta por vir
E para segurança que convém
Ele pode te servir.”
“Agradeço cavaleiro de terras além
Mas tempestade aqui não vai passar
E eu, por ser pessoa de bem”
Sei que é aqui que vou ficar”
Disse a garota, sem vai-e-vem
Sem querer partir
Pois sabia muito bem
Que perder tudo não poderia permitir
Mas nosso herói, valente porém,
Não poderia assim sair
E ficou, como a um homem convém,
E da tempestade, não quis mais fugir.
II
“Conte-me cavaleiro, sobre essa tempestade,
diga-me mais sobre sua natureza
e explique-me de sua qualidade,
pois o céu está uma beleza!
E não parece haver possibilidade
De que água alguma venha
a não ser que, por alguma peculiaridade
O Sol água contenha”
“As torrentes que virão na verdade
não serão de água, nem trarão frieza
Serão de fogo em sua integridade,
Capazes de destruir uma fortaleza!
Mas fugir não temos mais oportunidade
Resta-nos proteger-nos dessa força ferrenha.
Conheceis, donzela, por eventualidade
Próximo de aqui alguma lapa que nos convenha?”
“Ainda não creio em ti, é verdade
Cavaleiro, te digo com crueza
Mas por pura celeridade
Há uma caverna nas redondezas
É uma gruta sem profundidade
Mas que deve requerer uma senha
Pois um mago lá vivia em frugalidade
E dos prazeres do mundo se abstinha”
Ao saber de tal realidade
Disse o cavaleiro “Venha!
Venha princesa, sem temeridade
Mostre-me onde fica essa penha!”
III
A donzela guiou o cavaleiro
pelos prados sem demorar
e do mago o antigo cativeiro
facilmente pode alcançar.
“Aí está o viveiro
Onde poderá se esconder
Mas te recomendo, seja ordeiro
ou há de se arrepender!”
“Olhe veja, doce donzela, sem receio!
Para o horizonte te incito a mirar
Veja que sem bom paradeiro
Não conseguiremos nos aguentar!
Veja as nuvens em seu passeio!
Veja, já começam a aquecer
Se não vens, como requeiro,
Não demorarás a perecer!”
A donzela olhou e um susto lhe veio
O céu começava a flamejar
E constatou ser certeiro
O que o cavaleiro lhe estava a contar
Um desespero em sua face veio!
Sua família ia morrer!
E como se não bastasse o fim derradeiro,
A senha não teriam como saber!
“O que fazer!” disse com receio
“Minha família há que salvar
O povo da vila há de saber,
E a senha hemos de encontrar!”
IV
“Donzela, fique, a senha a descobrir
Enquanto eu à sua vila irei
Dizer ao povo para sair
Juro por minha vida que tentarei
Sem demora a todos atrair
E que somente irei retornar
Quando o fogo começar a cair
Ou quando a todos puder avisar”
E ele saltou em seu cavalo a partir
Mas a donzela disse “Buscarei!
Buscarei a senha sem me omitir
Não sei como começarei,
Mas sei que não vou permitir
que as rochas a nos parar
Persistam em nos impedir
De nossa proteção encontrar!”
Ou cavaleiro se distanciou a sorrir
Para a vila de Ka’wei
E chegando, começou por pedir
“Pessoas, a mim vireis
para em sua liberdade seguir
O céu está quase a desmoronar
E todos devem sair
E proteção a si buscar”
Vendo o céu, seu fogo a bramir
O povo, sem pestanejar
Fez o que o estranho estava a pedir
E fugiu para em cavernas e grutas a se ocultar
V
Vários dos homens o estranho seguiram
Levando consigo somente o que tinham às mãos
Nem riqueza nem espadas eles levaram
Nem água, nem vinho nem grãos.
Ao chegarem à gruta, porém, aturdiram
As rochas, a entrada a encerrar.
Cavaleiro e donzela a todos disseram
“A senha, temos que encontrar!”
Amedrontados, todos prosseguiram
Jovens, mulheres, clérigos e anciãos
a buscar na gruta como entrariam.
Os magos, conhecidos por serem ermitãos
Em suas grutas entrar não permitiam
E suas chaves eram difícil de encontrar
Mas os campesinos não parariam
De tentar uma forma de entrar
O fogo se acercou, como todos temiam
Os velhos machucaram suas mãos
Os jovens a esperança perdiam
Mas não encontraram na rocha desvãos.
As nuvens, como demônios, cingiam
Os céus e o horizonte a queimar
E quanto mais fogo bramiam
Mais medo faziam alastrar
Mas o cavaleiro disse “Não Temam!
A senha consegui encontrar!”
Em festejar todos bradaram
“Vamos a proteger-nos sem tardar!”
VI
O cavaleiro, à frente da gruta avançou
Concentrado, com respeito
de joelhos se prostrou
Respirou e buscou força em seu peito
Abriu o pergaminho e a senha entoou:
“Ó pedra com fecho perfeito
Ó pedra que sou, fui e serei
Consinta no que é meu de direito
Abra o caminho que em sua forma tranquei!”
Sem demora a pequena avalanche começou
E para os lados, esquerdo e direito
Um grande estrondo ecoou!
Entendendo bem o que havia feito
O nobre guerreiro então indicou
“Entrem amigos que os protegerei
Serei eu aquele que ficou
E sem temer, aos demônios deterei!”
Todos entraram, E ele começou
A tentar fazer o que ninguém havia feito
Deter a tempestade que um feiticeiro lançou
E proteger inocentes aflitos.
Sua espada levantou e então ele gritou
“Venham demônios, os derrotarei!”
E um urro ele lançou
“Venham que eu não os temerei!”
E então tudo começou
E eu, da caverna escutei
O jovem cavaleiro lutou
e por ele eu orei.
VII
Por horas a fio, sem cessar
O jovem guerreiro lutou
Com sua espada demônios a matar
E em seu escudo o fogo encerrou
E enquanto o céu seguia a crepitar
Em sua batalha seguiu sem desvanecer
Porém o ferro a esquentar
Parecia que lhe ia derreter.
Seu escudo estava a quebrar
Quando uma bola de fogo o acertou
E sua espada, sem fio a ficar
Quando a pilha de demônios aumentou
Seu cavalo morreu e nem pode ele lamentar
Pois caiu com sangue a ferver
E os inimigos que sem cessar
A ele tentaram dissolver
Mas com tenacidade sem se igualar
de um pulo se levantou
e com bravura não quis se dobrar
aos invasores ele surrou.
Por fim, a tempestade a se encerrar,
ele então pode ceder
E ao final, em prantos chorar
Ao companheiro que estava a morrer
“Ó céus, que grande pesar
Meu companheiro estás a receber
Por que ele não pude salvar
E nunca mais poderei ver!”
VIII
Saímos, então de nossa proteção
A donzela, foi a seu cavaleiro a consolar.
Nós, porém, contemplamos a destruição
Que somente uma chuva de fogo poderia causar.
Nada a não ser chamas em nossa visão
Campinas e colheitas todas acabadas
E, mesmo após haver concluído sua missão.
um cavaleiro com face desolada
“Cavaleiro, porque tanta comoção?
Seu cavalo, morreu valente, a seu lado a lutar.
Ele merece um bom enterro e uma oração!”
O jovem se levantou e disse, a concordar:
“Cavalguei com meu cavalo desde minha unção
Por prados e pântanos e cidades inacabadas
Partilhamos origens, destinos e reputação,
Pois pelo rei suas rédeas me foram dadas”
“Agora o enterremos e façamos veneração
Pois ele foi o único a se vitimar.
Cumpriu com a vida sua missão
e agora poderá descansar.”
Nós concluímos do cavalo a obrigação
E depois agradecemos por nossas vidas resgatadas
Ao cavaleiro e a seu grande coração
E a seu cavalo e sua vida entregada
E o cavaleiro se foi em sua peregrinação
E nós, com a lembrança da queimada,
do homem que nos veio em proteção
Quando não tínhamos mais nada.
Créditos da Imagem: Futurism
Publicado originalmente em 18/02/2016

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